Síndrome do impostor
Muita coisa eu entendia, até muito mais rápido do que a maioria: matérias, assuntos, raciocínios, estudos. E a mim muita coisa me fugia, como ainda me foge: Brincadeiras, mentiras, duplas intenções, ironias. Sempre fui a criança trouxa, que todos levavam no papo. Comportadinho, tadinho, que de tantos engolia o sapo. Seus talentos por muitos explorado. Reconhecido por suas capacidades e inteligência. Aproveitado por sua generosidade ingênua... Mas quebrar a cara ensina, descobrir as traições, as reprovações pelas costas, as segundas intenções... mesmo que muito tarde, mesmo que tarde demais.
Inês morreu faz tempo. Agora é tempo de recomeçar. Saber quem se é dá a sensação de ser libertador, tudo aquilo que eu vivi agora tem uma causa e um nome. Uma deficiência chamada autismo. Afinal eu não era a eterna criança trouxa... ou, aliás, era... e autismo é só o nome técnico disso...?
Mas eu sou tão bom em tantas coisas! Eu não sofro o mesmo que os chamados “casos mais graves”, eu não dependo tanto... embora me enrole todo na hora de resolver um problema quando isso depende de conversar com alguém... os invisíveis ensaios mentais eternos daquela conversa imprevisível. Que eu faço a tanto tempo que sempre achei que todo mundo era assim... E os mal-entendidos... E o quanto irritamos os outros quando levamos um monte de coisa ao pé da letra, a miopia social de não ler a letra miúda das conversas, nem as entrelinhas da comunicação falada ou escrita... Mas como pode, se você tem um vocabulário tão rico?!
Por essas e outras que eu fico em dúvida de mim comigo... erraram o diagnóstico? Mas eu me lembro de tudo que já sofri por não saber o básico de coisas da convivência, por ter hábitos que para mim eram tão naturais e necessários, embora tão escondidos e privados. Ninguém vê minhas estereotipias, que eu tão bem suprimo diante dos olhos alheios, com essa vergonha que me incendeia.
Mas eu lembro que não sou uma fraude... é só olhar como os remédios tão caros mês a mês me estabilizam, diminuem os pensamentos repetitivos, as estereotipias abertas e encobertas, a inquietação, os travamentos, as emoções à flor da pele. É só olhar a ressaca absurda depois dos eventos sociais, de uma ida ao shopping, de um trânsito mais pesado. A necessidade tão grande de descanso, principalmente após qualquer saída da rotina. A frustração pungente quando algo sai fora do planejado, quando um roteiro precisa ser repensado, quando alguém não atende as minhas expectativas. É só ver como as minhas únicas iniciativas não são de ver as pessoas queridas, mas apenas de seguir com meu trabalho, meus hobbies, a minha rotina. Como se eu não precisasse de ninguém, embora em muito precise. Todas as vezes em que fui rude sem perceber, pragmático demais sem notar que os sentimentos do outro também deveriam entrar na equação, que o outro também pede coisas com os olhos e não só com a boca.
E fico nesse limbo... sem atender a estereótipos... um lugar entre mundos... por tantos anos, subclínico.
Sou plateia assistindo fazem 25 anos esse turbilhão de sentimentos que vive meu filho e admiro sua clareza
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