Postagens

Anotações de uma sessão...

Em uma das nossas sessões, ela falou assim: "Eu queria parar de me moldar tanto aos outros... mas eu não sei quem sou sem isso." O que me fez refletir sobre como às vezes, a dor não está só no esforço de se adaptar, mas também está no medo de desaparecer se parar de se moldar. Foi tanto esforço observando como os outros se portam e foram tantos anos fazendo essa cópia, que fica a dúvida sobre “quem eu sou afinal?”. Muitas pessoas autistas passam a vida atuando para sobreviver. Camuflando gestos, opiniões, reações, necessidades. E quando têm a chance de ser quem são... Já nem sabem mais como. É quando o ator se confunde com a personagem, ou melhor, quando o ator não sai da personagem. Todos atuamos, em um contexto ou outro aprendemos que convém nos mostrarmos de um certo jeito. O problema é quando a atuação vai até para dentro de casa... Pelo menos o lar deveria ser o local seguro onde você pode finalmente ser você mesmo, no sossego do seu próprio jeitinho. O atendimento psico...

Síndrome do impostor

Muita coisa eu entendia, até muito mais rápido do que a maioria: matérias, assuntos, raciocínios, estudos. E a mim muita coisa me fugia, como ainda me foge: Brincadeiras, mentiras, duplas intenções, ironias. Sempre fui a criança trouxa, que todos levavam no papo. Comportadinho, tadinho, que de tantos engolia o sapo. Seus talentos por muitos explorado. Reconhecido por suas capacidades e inteligência. Aproveitado por sua generosidade ingênua... Mas quebrar a cara ensina, descobrir as traições, as reprovações pelas costas, as segundas intenções... mesmo que muito tarde, mesmo que tarde demais. Inês morreu faz tempo. Agora é tempo de recomeçar. Saber quem se é dá a sensação de ser libertador, tudo aquilo que eu vivi agora tem uma causa e um nome. Uma deficiência chamada autismo. Afinal eu não era a eterna criança trouxa... ou, aliás, era... e autismo é só o nome técnico disso...? Mas eu sou tão bom em tantas coisas! Eu não sofro o mesmo que os chamados “casos mais graves”, eu não dependo t...

Sobre minha amiga com "transtorno de personalidade não especificado"

Tenho uma amiga que é superdotada e autista. Todas as vezes que foi atendida pelo SUS, saiu com o mesmo rótulo: “transtorno de personalidade não especificado.” Ela se comunica com clareza, intensidade e objetividade. Mas sua fala pode parecer “fria” ou “soberba” a ouvidos despreparados. E isso afeta o modo como é interpretada por profissionais de saúde. Quando o estilo comunicacional autista é mal compreendido, traços como intensidade, firmeza ou reatividade emocional podem ser confundidos com “rigidez”, “frieza”, “imaturidade” ou “falta de empatia” e até como “comportamento desafiador”. O que será que está acontecendo aí? Se o profissional não considera autismo ou superdotação, não compreende os estilos comunicacionais, pode atribuir esses traços a “transtornos de personalidade”. Especialmente ao sentir-se desafiado, desconfortável ou desautorizado diante de um paciente que pensa rápido, argumenta com firmeza ou não reage da maneira socialmente esperada. O problema se agrava quando es...

Sobre ser insuficiente...

I Eu me esforço, trabalho, estudo, luto. Alcanço o objetivo, mas a fera vem sempre mordendo: "Você é insuficiente". Mergulhado em seu estômago sem fundo, sigo... sempre em falta, sempre em busca, sempre insatisfeito.  "Insuficiente": adjetivo; aquilo que não é o bastante; em que há necessidade ou escassez; pouco. Para mim é uma palavra que abocanha, insaciável. Às vezes me subjuga pela garganta e paralisa. Outras tantas vezes me faz recuar, desistir antes mesmo de começar.   In-su-fi-ci-en-te... aquele não atende, que não basta, que não chega lá, nunca chega lá.  Eu posso tentar, tentar, tentar, fazer, entregar, e isso não vai bastar. Sempre tem algo que poderia ser melhor, um detalhe que faltou, uma ponta que ficou solta. Há ainda tantas brechas! Olha como ainda tenho que aparar todas essas arestas! E é uma dor antiga... II Antes de publicar aqui eu passei muitos dias achando que esse texto não estava pronto. Tentei acrescentar mais coisas, tentando ampliá-lo. Esbo...

Enterrado vivo

"Enterrado Vivo" é um poema que eu escrevi pouco tempo depois que eu recebi meu diagnóstico de Autismo, o que me fez repensar toda minha vida e entender muita coisa sobre como eu me colocava nas relações e porque eu sempre copiava o comportamento de certas pessoas que eu via como referência de habilidade social, aquela pessoa "desenrolada", cativante, carismática. Quando adolescente sofri muito bullying sem ter feito nada, só por ser diferente. Mas eu nunca entendi que diferença era essa até receber o diagnóstico de TEA. Aí tudo fez sentido. Por que faziam tanta troça com meu jeito de falar, com minha expressão facial pouco expressiva, com as dores e incômodos que eu sentia nos ambientes, com a depressão que eu tive na época, o amargor que eu sentia todos os dias.  Enterrado vivo tu cavou um buraco muito cedo pra se enterrar muito novo embaixo de uma certa máscara   quem foi que te ajudou nessa empreitada? foi teu medo de ser julgado por toda a sala quando você só q...