Enterrado vivo

"Enterrado Vivo" é um poema que eu escrevi pouco tempo depois que eu recebi meu diagnóstico de Autismo, o que me fez repensar toda minha vida e entender muita coisa sobre como eu me colocava nas relações e porque eu sempre copiava o comportamento de certas pessoas que eu via como referência de habilidade social, aquela pessoa "desenrolada", cativante, carismática. Quando adolescente sofri muito bullying sem ter feito nada, só por ser diferente. Mas eu nunca entendi que diferença era essa até receber o diagnóstico de TEA. Aí tudo fez sentido. Por que faziam tanta troça com meu jeito de falar, com minha expressão facial pouco expressiva, com as dores e incômodos que eu sentia nos ambientes, com a depressão que eu tive na época, o amargor que eu sentia todos os dias. 

Enterrado vivo

tu cavou um buraco muito cedo
pra se enterrar
muito novo

embaixo de uma certa máscara  

quem foi que te ajudou nessa empreitada?
foi teu medo de ser julgado por toda a sala
quando você só queria fugir de toda aquela algazarra
e de toda a piada que faziam com o teu nome e com a tua cara

você se perguntou:
mas quem iria gostar dessa criança tão tosca e tão desconcertada?
e a si mesmo se enterrou...

você se enfiou, criança, naquela cova nada rasa
lá embaixo, silenciosa, abafada
abafando tua voz engessada
engessando o burilado dos teus dedos inquietos
aquietando o balançar do teu tronco curvado
curvando os teus olhos e os de quem visse a tua tensa e contraída cara

a vida é mesmo engraçada
pois foi a vontade de morrer o que te tirou daquele buraco...
e morreu a tua máscara
teus olhos chuvosos realmente fizeram uma grande temporada
naquele temporal das tuas cicatrizes doloridas
atemporais

teu Eu será para sempre o teu trauma?

saiba que os girassóis voltaram a girar 
pois eis o Sol agora
traz o teu rosto pra um ar fresco aqui fora
vai ser bom te ver respirar

tu ainda se lembra como é ser do teu próprio jeitinho?
mal se lembra? tudo bem... podemos ir devagar
não tem problema
que seja no seu tempo, continuo aqui contigo
você pode se soltar
porque eu te amo do jeitinho que você é


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