Sobre minha amiga com "transtorno de personalidade não especificado"

Tenho uma amiga que é superdotada e autista. Todas as vezes que foi atendida pelo SUS, saiu com o mesmo rótulo: “transtorno de personalidade não especificado.” Ela se comunica com clareza, intensidade e objetividade. Mas sua fala pode parecer “fria” ou “soberba” a ouvidos despreparados. E isso afeta o modo como é interpretada por profissionais de saúde.

Quando o estilo comunicacional autista é mal compreendido, traços como intensidade, firmeza ou reatividade emocional podem ser confundidos com “rigidez”, “frieza”, “imaturidade” ou “falta de empatia” e até como “comportamento desafiador”. O que será que está acontecendo aí?

Se o profissional não considera autismo ou superdotação, não compreende os estilos comunicacionais, pode atribuir esses traços a “transtornos de personalidade”. Especialmente ao sentir-se desafiado, desconfortável ou desautorizado diante de um paciente que pensa rápido, argumenta com firmeza ou não reage da maneira socialmente esperada.

O problema se agrava quando essa pessoa é uma mulher autista e superdotada.

Tais psiquiatras olham e escutam minha amiga e veem que ela é: socialmente diferente: fala intensa, pouco convencional, sem filtros sociais; emocionalmente reativa e intensa em certos momentos; muito racional e rígida em algumas opiniões ou temas de interesse. A falta de “doçura”, “subordinação” ou “validação afetiva” pode acionar preconceitos inconscientes e enviesar o diagnóstico.

E ainda há um ponto estrutural: A formação médica, mesmo a psiquiátrica, ainda é muito falha em reconhecer o autismo em adultos, especialmente nas suas apresentações atípicas – como em mulheres, pessoas racializadas, superdotadas ou com histórico de camuflagem social. A minha amiga é rotulada com base na reação emocional que causa, não numa escuta cuidadosa de sua história.

A pergunta que fica é: Quantas pessoas passam por isso todos os dias?

Nem sempre o diagnóstico vem de uma escuta atenta. Às vezes, ele vem do desconforto. Diante de um comportamento que desafia o senso comum clínico, muitos profissionais preferem recorrer a um diagnóstico genérico, como “transtorno de personalidade não especificado”, em vez de dizer: “Não sei ainda o que é, preciso estudar mais.” E desse lugar o diagnóstico vem como uma reação, e não uma compreensão.

A minha amiga é superdotada e autista. Mas o que muitos psiquiatras enxergam é só o impacto emocional que ela causa: intensidade, firmeza, lucidez. E prevalece o incômodo de quem não sabe como nomear o que não reconhece.

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