Anotações de uma sessão...

Em uma das nossas sessões, ela falou assim: "Eu queria parar de me moldar tanto aos outros... mas eu não sei quem sou sem isso." O que me fez refletir sobre como às vezes, a dor não está só no esforço de se adaptar, mas também está no medo de desaparecer se parar de se moldar. Foi tanto esforço observando como os outros se portam e foram tantos anos fazendo essa cópia, que fica a dúvida sobre “quem eu sou afinal?”.

Muitas pessoas autistas passam a vida atuando para sobreviver. Camuflando gestos, opiniões, reações, necessidades. E quando têm a chance de ser quem são... Já nem sabem mais como. É quando o ator se confunde com a personagem, ou melhor, quando o ator não sai da personagem. Todos atuamos, em um contexto ou outro aprendemos que convém nos mostrarmos de um certo jeito. O problema é quando a atuação vai até para dentro de casa... Pelo menos o lar deveria ser o local seguro onde você pode finalmente ser você mesmo, no sossego do seu próprio jeitinho.

O atendimento psicoterapêutico me ensinou que o que se repete lá fora na vida, se repete aqui dentro no consultório. A Psicoterapia Analítico Funcional (FAP) ensina isso, a olhar bem para o que acontece em sessão, na nossa interação entre psicoterapeuta e cliente. 

É por isso que a sessão de terapia precisa ser o primeiro lugar seguro. O lugar onde você não precisa atuar. Nem se ajustar. Nem se explicar.

É aí na terapia que você pode começar a experimentar seu próprio jeito, seu próprio estilo e se apropriar de quem você é, pelo menos novamente. Quem sabe fazer uma síntese? Aprender a juntar as peças de tudo que você aprendeu nos últimos anos tentando ser como os outros e articular com as peças que te acompanharam desde muito tempo.

A FAP nos convida a olhar com atenção para os padrões que se repetem nos nossos vínculos, inclusive aqui, na relação terapêutica. 

Eu vejo meu cliente se criticando e se tolhendo na minha frente?

De onde veio isso, de quem é a voz que te critica?

Para um pouco e me fala, quais são três coisas que você se orgulha em si?

O que você gosta de fazer e que te traz um sentimento de realização?

Se um amigo estivesse enfrentando uma situação como a sua, o que você diria para incentivá-lo?

São perguntas como essa que eu costumo fazer, e que na verdade são um convite para você olhar para certos aspectos da sua vida e de você mesmo(a) e mostrar ao vivo sua autocompaixão: olhar para si com compreensão e gentileza. Diante disso nós vamos juntos sorrir.

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